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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

"FELICIDADE... PASSEI NO VESTIBULAR..."


 Para onde a tecnologia, que nos traz tantas facilidades, levou o brilho de algumas coisas, hein?!


E antigamente, num passado não muito distante, lá estava toda a cidade ligada nas ondas do rádio... O rádio estrondando, em todas as alturas... Começou na Rádio Cultura do Oeste, depois era a Dumbo FM, Ismael Mendes e sua voz imperiosa, e qualquer outro funcionário da UERN (Universidade Estadual do Rio Grande do Norte) auxiliando na lista. Internet não existia, computador só na casa de quem tinha as coisas. Os telefones da rádio todos congestionados... "Mas ligue, homi, possa ser que alguém atendaa..." Ai, meu Deus! Mesmo assim, para se ligar, tinha que ir na casa de num sei quem que tivesse telefone em casa. Celular? Ninguém sabia o que era... Ou, ir ao orelhão, com um cartão telefônico de 10 unidades se acabando... Enquanto isso..., pegue Martinho da Vila no mesmo compasso o dia todinho:

"Felicidade, passei no vestibular...
mas a faculdade é particular..."

Para terminar de completar, o dolente, cadenciado e reflexivo "Coração de Estudante" de Milton Nascimento. Esse deixava a pessoa depressivazinha com cara de quem não ia passar. Ave Maria!

Lá vai a língua de num sei quem e suas respectivas literaturas, e uma tal de Maria Elisa de Albuquerque Maia quase toda hora nos meus ouvidos, que muito estudiosa, para mim, passava em todos os cursos... Sempre saía o nome dela. Menino... era bom demais!

 -Será que meu nome não vai sair hoje, meu Deus?!

De repente, uma casa explode em gritos de alegria: alguém passou. Ihhuuuuuuu!

Corre, pegaaa, joga ovo, raspa o cabelo, tira a sobrancelha...

-Foi a filha de num sei quem que passou...

-Pia, esse nome é o de coisinha...

-Cala a boca, homi, senão eu num vou ouvir o meu.

E quem nunca sonhou em ouvir seu nome na rádio com todo mundo gritando histericamente  ao mesmo tempo na sala pequena de uma casa, após a pronúncia do esperado nome?! Ali era como aguardar Pelé bater um pênalti em 70, ao som de Luiz Mendes.

Mas hoje, hoje, como diria Saramago, só é possível derramar lágrimas sobre a face de um disco rígido.

Ê vida de gado...

Por Manoel Cavalcante (que viu seu nome na lista da UFRN num apático lan house, mas ouviu os das irmãs em alto e bom som, no rádio em todas as alturas)

sábado, 16 de janeiro de 2016

MATUTO DO PÉ RACHADO



João Alves de Souza, vulgo não, porque ele não era vulgar, conhecido e bastante conhecido como João Pereira, nasceu no dia 11 de abril de 1926, no Sítio Raiz, zona rural de Pau dos Ferros. Era filho do casal Antônio Pereira da Silva e Raimunda Nonata de Souza sendo o nono filho entre 10 irmãos. Casou-se com Maria Severiano do Rêgo no dia 16 de dezembro de 1951, na Igreja Matriz de Nossa Senha da Conceição, em cerimônia celebrada pelo ainda vigário Manoel Caminha Freire. Dessa união, nasceram 5 filhos, 3 homens e 2 mulheres. Trabalhou na roça, foi pedreiro, estudou por poucos dias, mas foi o suficiente para ser alfabetizado. 

Foi um dos fundadores do sindicato dos trabalhadores rurais de Pau dos Ferros, entidade da qual também foi presidente. Ingressou na vida política e obteve grande êxito. Foi um dos fundadores, em Pau dos Ferros, do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), hoje o PMDB e atuou por 4 mandatos como vereador de nossa cidade (66 a 72 , 72 a 76 , 88 a 92 , 92 a 96) tendo a oportunidade de atuar como presidente da câmara. Na foto abaixo, ele está assinando sua posse em 1992.



E seu João Pereira é enfim... POETA! É. Porque um poeta não morre. Um poeta nato, puro, de inspiração rara e simples. O famoso autor do poema "matuto do pé rachado". Essa era a alcunha preferida dele, a de Poeta, a de matuto. Em toda história política de nossa cidade, talvez tenha sido o único candidato a fazer discurso rimado no palanque, assim como fazia o genial Ronaldo Cunha Lima no Estado da Paraíba. Seu João ainda foi cantador de viola, cantou muito com Mundico de Zé Alves, mas deixou a viola por não saber tocá-la e por não possuir uma voz privilegiada.

A poesia que dá nome a essa postagem, é o seu emblema, conhecida em todos os recantos de nosso lugar... Sua origem veio de uma crítica que um candidato de sua época, fez a uns eleitores que disseram quando esse foi pedir o voto naquela residência: "Aqui em casa, todo mundo vota em seu João Pereira!" O candidato se achando o tal por ser "formado" disse: "Quer dizer que vocês vão votar num matuto do pé rachado?!" Foi o que seu João Pereira quis para escrever a obra que contava sua história, um poema em texto único com mais de 100 rimas no "ado" sem repetir nenhuma palavra. 

No belíssimo poema, revela as dificuldades que a vida lhe impôs:

"...Nasci em uma tapera
feita de barro amassado
num jirau feito de varas
com palha seca forrado
minha mãe uma doméstica
daqule tempo passado
que além de cuidar de casa
trabalhava no roçado
meu pai era um camponês
que trabalhava alugado..."

"Trabalhando com meu pai
foi assim que fui criado
limpando terra e plantando
fazendo todo o traçado..."

"...Quando eu tinha oito anos
o meu pai foi sepultado
eu fiquei órfão de pai
fiquei desorientado
minha mãe ficou viúva
com cinco filhos de um lado
fui arrimo de família
mas dei conta do recado..."

Fala sobre suas profissões:

"Bom no cabo da enxada
Bom na foice e no machado
Fui amansador de burro
corria e pegava gado
trabalhava de pedreiro
fui um pedreiro aprovado..."

"... Nasci com dom de poeta
cantei verso improvisado
porém deixei de cantar
por ser meio desafinao..."

"...Ingressei na vida pública
Pelo povo convocado
vereador quatro vezes
e todas fui bem votado
nunca perdi eleição
nunca ganhei apertado
se não fiquei em primeiro
sempre ficava encostado..."

Alguns gracejos como:

"...Nem sou rico nem sou pobre
vivo nesse misturado
mas na minha adolescência
eu fui um pobre lascado
meu transporte era um jumento
em que eu andava montado
depois uma bicicleta
que tinha um guidom quebrado
mas andava satisfeito
nunca fui desanimado..."

"... Gosto de mulher bonita
mas isso não é pecado..."

E fala da gênese do poema:

"...Quem mais criticou de mim
foi um bacharel formado
eu ganhei a eleição
e ele foi derrotado"

Pereira era um grande apologista de cantoria, conhecido no meio e irmão do grande Pereirinha, grande promovente de cantoria de nossa cidade. 

Também versou sobre a morte no alto dos seus 85 anos quando disse:

"Eu nunca gostei da morte
que a morte é um cabra ruim
levou papai muito cedo
pegou mamãe deu um fim
já carregou minha esposa
e anda feito uma raposa
farejando atrás de mim..."

De outra feita, estava uma turma comendo um pirão de peixe na beira de um açude e Juvenal Pereira, sobrinho de seu João, pediu que o poeta fizesse uma estrofe sobre o mote:

QUEM NÃO COME UM PIRÃO NUM BEIÇO DÁGUA
NÃO CONHECE O QUE É VIDA SERTANEJA

E o "matuto do pé-rachado" atendeu o pedido:

Não pretendo ser chefe de autarquia
Nem também ser gerente do Bradesco
Eu pretendo é comer um peixe fresco
Bem no beiço da água quando é fria
Bota o caldo e a farinha na vazia
E o peixe cozido na bandeja
Com cachaça eu não quero ver cerveja
Só assim eu afogo a minha mágoa
QUEM NÃO COME UM PIRÃO NUM BEIÇO DÁGUA
NÃO CONHECE O QUE É VIDA SERTANEJA.

O encantamento do poeta matuto deu-se no dia 12 de dezembro de 2015, aqui mesmo em nossa cidade, onde também foi sepultado. Deixou uma grande lição vida e de superação.

Viva nosso poeta!

"...Amo a Deus e o trabalho
e o resto é papo furado
uns me xingam outros me amam
e adoro quando me chamam
MATUTO DO PÉ RACHADO"

João Pereira, como presidente da câmara, dando posse ao prefeito eleito Aliatá Chaves, nosso Baiba, em 1992.


Por Manoel Cavalcante






sábado, 9 de janeiro de 2016

A HISTÓRIA DO TÍTULO DO MATUTÃO DE 1971, PELO CLUBE CENTENÁRIO PAUFERRENSE


                                        


Título do Matutão

Pra quem não sabe o sentido
Do nosso estádio altaneiro
Ter o nome singlar,
Sendo “9 de Janeiro”
É fazendo uma alusão
Ao título do “Matutão”
Por nosso time guerreiro.

Era nosso grande Clube
Centenário Pauferrense,
O famoso CCP
Que a nossa história pertence,
Deixando estabelecido
Que quando se está unido
Qualquer batalha se vence.

Matutão foi um certame,
Um famoso campeonato,
Disputado pelos campos
Nas cidades e no mato
Reunindo as principais
Seleções municipais
Sem bla-bla-bla nem boato.

O Centenário ficou,
Acuado qual tatu,
Num grupo ruim feito leite
De pele de cururu,
Porém não ficou no quase
Deixou na primeira fase
Almino Afonso e Patu.

Contra Patu, dois empates:
Um a um e dois a dois,
Porém contra Almino Afonso,
Nós vencemos sem complôs:
Um a zero e dois a um
Sem querer fazer jejum
Do que viria depois.

Na fase de mata-mata
Confesso de forma franca
Que ainda teve gente
Que pensou em botar banca
E o CCP, sem ser fraco,
Pôs dois a zero no saco
Do time de Areia Branca.

Depois sem muito trabalho,
Nós goleamos sem dó
O timão mais badalado
Das terras do Seridó
E para ser mais sincero
Sapecamos cinco a zero
No lombo de Caicó.

Aí chegou a final
Com grande expectativa.
De Pau dos Ferros saiu
A equipe competitiva
Para o jogão esperado
Almejando o resultado
De maneira positiva.

O time de Macaíba
Era o nosso adversário,
O Juvenal Lamartine
Em Natal foi o cenário
Sem mídia nem entrevista
Da grandiosa conquista
Que tentava o Centenário.

Dia 9 de Janeiro
Do ano de 72
Aconteceu o jogão,
E sem dizer nem apois,
Nosso time CCP,
Ganhou e fez fuzuê
Pela cidade depois.

Foi 72 o ano
Que aconteceu a final,
Mas ela foi referente
Ao torneio estadual
Que houve em 71,
Tenho a certeza incomum
De forma documental.

Salvino foi o goleiro
E na zaga, pra impedir
Os ataques foi Manel
Do Dnoc’s e Aldemir,
E pra fechar a janela
Butiginha com Varela
Jogavam sem se exibir.
  
Toinho de Sula era
Nosso lateral direito
De Assis era o esquerdo
Dando um balanço perfeito,
Pois ambos não se cansavam,
Defendiam e apoiavam
Correndo de todo jeito.

Chiquinho, ponteira esquerda
Na técnica perfeita
Dava show junto a Derval
Que era o ponteira direita
E pelo meio, sem perda,
Bobô era meia esquerda
Deixando a orquestra feita.

De todos os jogadores
Cada qual foi importante,
Mas os ponteiras e o meia
Tinham papel relevante
Pois detinham a função
De só meterem bolão
A Edílson, o centro-avante.

Os reservas começando
Pelo nome do goleiro,
Nós tínhamos pelo banco
O arqueiro José Monteiro
E Chico de Umarizal
Nunca que levava a mal
Ser reserva o tempo inteiro.

Dedé Bobó, Geraldinho,
Chico da Bomba e Bambão,
Também ficavam no banco
Junto a Cosmo, porém não
Viam a necessidade
De cheios de vaidade
Fazerem reclamação.

Jácio, vindo de Natal,
Do time foi treinador
Armando como um xadrez
Cada peça com primor,
Adquirindo o respeito
Tratando do mesmo jeito
Jogador por jogador.
  
Sobre a história do jogo,
Primeiro o bicho pegou,
Pois chutaram uma bola,
Nosso Salvino espalmou,
Mas chutaram novamente
E Manel, infelizmente,
Com a mão tirou o gol.

O pênalti foi marcado
Pelo juiz num impulso,
Porém Manoel do Dnoc’s
Mesmo com seu ato avulso
Não foi nem penalizado,
Porque isso, no passado,
Não fazia ser expulso.

O cabra só era expulso
Se fosse um grande alvoroço,
Numa falta violenta,
Na quebrada de um pescoço,
Numa voadora rara,
Num tabefe numa cara,
Numa torada de osso.

Mas voltando para o pênalti,
O cabra fez logo o gol,
Bateu fazendo um a zero,
Porém mal comemorou,
Mal se contentou por dentro,
Pois quando bateu o centro
O Centenário empatou.

O empate também foi num
Pênalti sem discutir
Que foi sofrido e batido
Pelo zagueiro Aldemir,
Mas o gol mais desejado,
O momento mais louvado
Estava logo por vir.

Porque com o jogo empatado,
A partida pegou fogo
E eu confesso sem mentir,
Sem querer ser demagogo,
Que sem precisar rodeio
Chiquinho, sem aperreio,
Num instante virou o jogo.

Com a partida em dois a um,
Já perto de seu final,
O Centenário ficou
De maneira imperial
Tocando a bola e pensando
Naquele momento quando
Vinha o apito triunfal.

Quando o juiz apitou
Foi enorme a emoção,
Em Natal mesmo ficaram
Para comemoração,
Pois Paulo Diógenes fez
Um banquete de uma vez
Para o time campeão.

Porém, antes de ir à festa
Feita pelo deputado
O time inteirinho foi
Andando, mesmo cansado,
Para uma igreja sem pressa
Pra pagar uma promessa
Pelo êxito alcançado.

No outro dia saíram
Num ônibus equipado
Em busca de Pau dos Ferros
Sem saber que o povo honrado
Esperava, na verdade,
Já na entrada da cidade
Na fazenda Boi Comprado.

Quando os campões chegaram
Foi um alvoroço incerto...
Desfilaram na cidade
Em festa num carro aberto
E quem diz sem temer sorte
Que aquela foi, do esporte,
A maior a festa, está certo.

Lá no centro da cidade
Tinha um palanque montado
Repleto de autoridades
E o time homenageado
Pela banda marcial
Ali naquele local
Por populares lotado.

Realmente foi um marco
Que ficou na nossa história
Não foi apenas um título
Não apenas uma glória
Foi lição de amor perfeito
Àquele escudo do peito
Dando mais brilho à vitória.

Trecho do livro "Pau dos Ferros à sombra da oiticica".

Por Manoel Cavalcante

sábado, 26 de dezembro de 2015

VISITA DO PRESIDENTE A PAU DOS FERROS


O Perímetro Irrigado foi um programa de irrigação criado pelo governo federal, sob o comando do DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra a Seca). Localiza-se a 9km da sede do município de Pau dos Ferros-RN e a 2km do açude do município. Foi fundado em 1977, embora suas obras tenham sido iniciadas em 1973. (Foto acima mostra  os colonos que primeiro habitaram o Perímetro junto aos dirigentes do DNOCS).

Justamente nesse Perímetro, Pau dos Ferros teve a honra de receber um Presidente da República, que na época, era José Sarney. A visita ocorreu em 28 de outubro de 1987, o governador do estado do Rio Grande do Norte era Geraldo Melo e o prefeito de nossa cidade era José Fernandes de Melo. A visita consistia no acompanhamento das obras do Perímetro Irrigado, assim como ocorreu em outros estados do nordeste.

Na Biblioteca da Presidência da República, está disponível o discurso do presidente, por escrito, contendo 6 laudas, proferido na visita a nossa terra. Abaixo, o trecho final do discurso:


-Se eu pudesse, eu, político que gosta do povo, que sempre fui político popular, ao lado do povo, eu mergulharia, aí, no meio de vocês, brasileiras e brasileiros, para abraçar cada um, apertar a mão de cada um, como quis fazê-lo há pouco, lá na Paraíba, para dizer-lhes muito obrigado.

-Mas, não podendo fazê-lo, eu aqui, nestas palavras, entrego a todos vocês o coração do Presidente do Nordeste da Irrigação, que foi o primeiro Presidente a vir a Pau dos Ferros, e que não seja o último a ver o verde nascer no meio da seca mais desoladora da região.

Por nossas terras, as lideranças políticas e o presidente chegaram de helicóptero e foi grande o alvoroço para presenciar a vinda do presidente, muita correria, que depois viraria motivo de algazarra pela tradição oral, motivo de muitas brincadeiras, como disse um certo poeta:

Dizem quem quando chegou
o helicóptero a descer,
o povo se agoniou,
sem saber o que fazer
naquele mar de poeira
todos fizeram carreira
pensando que iam morrer.

Abaixo, o link do documento que reproduz o discurso do chefe maior de nosso país em 1987:

http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/ex-presidentes/jose-sarney/discursos/1987/94.pdf


Por Manoel Cavalcante

Créditos à pedagoga Hortência Pessoa.



sábado, 19 de dezembro de 2015

O BARDO



José Alcigério Batista é natural de São Miguel-RN, nasceu no dia 13 de setembro de 1955. Filho de seu Alcides Batista e Dona Josélea, tem nove irmãos: 4 homens e 5 mulheres. Casou com Francisca Leite Batista, Dona Chica, -ache caro e ruim quem quiser-. Neste laço, gerou dois filhos varões. Morou em São Paulo, Brasília, Natal, Campos do Jordão, Fortaleza, Mossoró, se formou no ano de 1984 em Letras Inglês pela antiga FURN e se pós graduou em Linguagem pela UNP. Em São Paulo, no ano de 1978, foi gerente de uma loja de tecidos no Brás, em 1977, viveu ganhando alguns trocados como cuidador de um deficiente visual. É funcionário público do estado, professor de língua inglesa. Recebeu o título de cidadão pauferrense em 09 de dezembro de 2011. 


Afora tudo isso ou consoante a, eu falo de um espírito de luz chamado Léo Batista, o Bardo, o Xamã Aventureiro, o Falcão Ligeiro. Léo é o poeta das melodias, é o dono da curva das palavras, é o irmão dos sons. Pousou em nossas terras, se firmou, construiu seu clã e nos deu de presente uma obra sobre-humana e surreal. Quem nas vielas de Pau dos Ferros nunca ouviu falar no SERTÃO DE METAL, uma visão futurista, composta em meados dos anos 70, que retrata justamente a realidade que vivenciamos hoje? Os tempos do sabiá de metal mal polido... Nos anos 80 e 90, depois dos folguedos da sorveteria de Sales Correia, Leo e Círio (seu companheiro inseparável) derramaram suas liras na Praça do Pavilhão e construíam seus nomes na cultura de nossa cidade. Gravaram juntos em 1995, o disco que leva o nome dessa composição mais famosa "o sertão de metal", LP que roda nas radiolas do mundo todo e até hoje faz sucesso por todos os recantos do planeta.


Léo é místico, doce, humano e sobretudo, alma, um homem de alma, um humano interior, de fé. Além do Sertão de Metal, oração de nossas terras, Léo possui uma obra imensa e ainda inédita, privilegiados aqueles que chegaram a ouvir, numa esquina, num encontro etílico, o verbo em melodia de nosso Falcão Ligeiro. 





Como uma espécie de irmão, filho e fã de toda a sua obra, eu tenho esse privilégio de conhecer seu mundo além do Sertão de Metal, dois pontos:

Escrava de ouro, Musa linda, Cidade, Margaridas da favela, Passos de um peregrino, Passarinho de estrada, Pseudo-cidadão, Terra sem males, Pimpolho, Caminha e tantas outras que não chegaram aos ouvidos da massa, dos jovens, que é de embriagar e revoltar ao mesmo tempo, diante de tanta beleza virgem e não conhecida.     

A obra do Xamã Aventureiro não tem idade, é telúrica, é espiritual, é naturalista, um tratado de conduta humana, um templo sagrado. O que dizer da mística ATMA-LUZ, Da melodiosa e dolente VELHICE PRECOCE? Do bucólico POR FAVOR, SEU CAPITÃO? Das cômicas ASSOMBRAÇÕES ESPACIAIS? Eita, velho bardo, nós somos felizardos por sermos devotos de sua carga poética. E seu legado ecológico nas canções? Que as energias façam com que isso tudo ganhe forma de gás e esteja ao alcance da respiração de todos.

Você seria mil livros, mil postagens, por enquanto, ficaremos com essa amostra de sua passagem poética permanente, de seus trabalhos intensos. Avante mestre, chapéu na cuca, barba anarquista e revolucionária e verso na voz...

"Há de existir um lugar onde o tempo para para ver o jegue relinchar, onde o mundo é de todos nós..."

Na foto abaixo, Léo está sob os olhos de Ariano Suassuna na sua visita em nossa cidade, no ano de 2012:



Por Manoel Cavalcante

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O MODERNISMO DE 1930, ZÉ LINS E PAU DOS FERROS



O século XX traz para a cultura ocidental um novo modo de viver e de pensar. A arte não permanece alheia a isso, haja vista a chegada do pensamento modernista. Como bem nos lembra o estudioso João Luiz Lafetá, o Modernismo nos traz pelo menos dois projetos: um estético, outro ideológico. O projeto estético, mais ligado à chamada “fase heróica” de 1922 e o ideológico ao Modernismo regionalista de 1930. Um referente à linguagem, outro às mazelas sociais do Brasil daquele tempo.

Todavia, é importante ressaltar que esses dois projetos devem ser vistos de forma dialética e não dicotômica. Os dois se completam para dar voz à riqueza da criação de nossa arte moderna. Portanto, ainda que com diferenças significantes, o Modernismo de 1930 traz marcas e percorre caminhos abertos pela primeira fase. Isto é, os aspectos do Modernismo da primeira fase que enriquece o de 1930 estão ligados ao rompimento com a linguagem arcaica, inflexível, tradicional e acadêmica que amarrava a literatura à erudição. José Lins do Rego, por exemplo, seria fortemente influenciado pela linguagem popular dos cantadores de viola, das velhas contadoras de estórias e dos cordelistas de seu tempo. Certa vez, quando questionado por que não escrevia a continuação do romance Pedra Bonita, Zé Lins responde que precisaria tornar a ler o poeta popular João Martins de Athayde para que realizasse tal feito.

Em 1953, José Lins do Rego nos presenteia com a tal continuação de Pedra Bonita, seu último romance: Cangaceiros. Era a continuidade da história da família Vieira, contada pelo jovem Antônio Bento, que perde dois de seus irmãos para o cangaço, sendo que um deles, Aparício, se torna chefe do bando, feito que aproxima Bento do bando de cangaceiros através de serviços prestados, como troca de informações, transporte de munição e até tratamento aos cabras baleados.

É justamente nessa preciosa obra do Modernismo de 30 que uma curiosa cena se passa em nossa Princesinha do Oeste, Pau dos Ferros, quando uma lavadeira de roupa conta a seguinte estória:

- Aparício chegou em Pau dos Ferros e estava na casa do prefeito, todo grande, como dono de tudo. Os cabras comiam e bebiam pelas bodegas. Pois não é que um sujeito botou-se para Aparício querendo matar o homem? Aí, menina, a coisa pegou fogo. A briga nem demorou um minuto. Aparício pulou para a rua com o sujeito e o bicho ficou estendido na calçada. Aí ele gritou para os cabras: “Vamos dar uma lição nesta cambada.” E deram mesmo. Não ficou nem uma donzela em Pau dos Ferros, comeram até uma menina de nove anos.
[...]
Dizem que Aparício pegou a mulhé do homem da mesa de renda, um tal de Feliciano, e mandou os cabras se servir da pobre, um por um. Pau dos Ferros não tem mais honra e o povo fugiu de lá. Até a feira não dá mais. (REGO, 2010, p. 48).

É importante ressaltar que essa pequena narrativa trata-se de uma obra ficcional e não possui nenhum comprometimento histórico, tais letras devem ser lidas como arte e entendidas como um privilégio, ainda que através de uma representação tão trágica.

O trecho acima, ainda que de ficção, nos permite recriar um retrato da organização social da Pau dos Ferros de Zé Lins. Iniciamos pela própria organização política, que já conta com um prefeito, cargo conferido ao chefe do executivo de uma cidade, e ainda a presença de uma “mesa de rendas”, órgão do governo que seria correspondente às agências da Receita Federal. Entretanto, apesar de ser um meio urbano, a cidade ainda possui traços rurais, como as bodegas. Dessa maneira, a cidade, como outras inseridas nesse contexto, vivia a transição lenta do rural para o urbano, conforme ocorria no século XX por essas terras de cá.

Algo que também merece destaque é o sentimento de honra que é ferido por um ato de violência. No contexto do sertão nordestino, sobretudo até o século passado, sofrer uma ação violenta é correr o risco de ser desonrado. Caso o que padece não vingue o ato, este perde a sua honra e abre margem para que seja acometido de nova agressão. Por isso a vingança é extremamente forte nesse espaço, pois é um meio de manter a honra e de impor respeito. Como o povo não pôde com o poder do autoritário rifle de Aparício, restou a desonra. As pessoas fugiram com o trauma e a vergonha da violência e até mesmo a feira, símbolo de Pau dos Ferros fora da ficção, entra em decadência.

Não há dúvidas da relevância do Modernismo de 1930 para o Nordeste brasileiro, sobretudo para o seu semiárido. Pois, através dele, a arte deixa de ser centralizada apenas no centro-sul do país e avança às regiões tidas como periféricas. Nessa arte, ganharam espaço o sertanejo simples, a seca, as instituições autoritárias e a briga por poder que até hoje compõe nosso cenário. Pau dos Ferros, portanto, surge como espaço nesse romance graças ao fato de que o Modernismo de 30 dá voz às paisagens interioranas. O texto de Zé Lins, ainda que do século passado, pode permanecer atual, a depender da leitura que se faça dele e de nossa sociedade.


Netanias Mateus de Souza Castro é mestrando em Letras pelo PPGL/UERN na linha de pesquisa “Texto literário, crítica e cultura” e cabra macho.